30 junho 2012

Sobre uma outra dimensão


Foi então que os desdobramentos dos fatos se deram numa velocidade entorpecida, nos envolvendo serenamente. Quando chegamos, os atendentes nos recepcionaram com delicadeza, sem perguntas, suas listas estavam devidamente preparadas, de modo que apenas nos encaminharam para os respectivos dormitórios. Flutuávamos não só por um tempo viscoso, mas por uma sensação de descolamento da realidade. Tomei um banho, olhei-me no espelho, a face barbada causou-me estranhamento. A letargia e assepsia do lugar convidava a um sonho em que os acontecimentos seguiam um script sinuoso, marcado pela completa ausência de circunstâncias. Dormi como um anjo e pela manhã, novamente no hall de entrada do hotel Las Nubes, nos encaminharam para o café da manhã. Compúnhamos um grupo desigual, e eu particularmente me sentia muito distante de cada um deles.

Ocupamos mesas redondas, havia muitas delas, cobertas por toalhas de algodão branco, como brancas eram as paredes e o teto, e nos concentramos silenciosamente em nos servir. Apenas um garçom se esfalfa para servir ao punhado de lost in translation, que não retira a calma apascentadora do ambiente. Deixamo-nos levar por uma lógica invisível, desconhecida, que de algum modo - acredito eu - acabará nos conduzindo de volta à vida. Quando o garçom retornou, perguntei-lhe sobre um telefone, ele apenas ronronou, No hay teléfonos... e seguiu com o bule de café para a mesa vizinha, para o casal tão jovem, que não se cansava de se contemplar, enternecido, entre estalos em forma de beijinhos...

Respiramos o ar livre da aurora, uma tênue neblina espargia sobre a imensidão de uma planície desconhecida. Tomaremos a estrada, de volta ao aeroporto. Reencontro o velho de chapéu e de expressão confiante, comento-lhe a sensação que me atravessa, uma referência direta a um conto de Benedetti, a falta de conexão do voo, uma estranha suspensão do tempo, as idas e vindas ao hotel, a espera indesejada... O velho apenas sorri, sem dissipar a confiança impressa nas bochechas. Insisto nas coincidências, a ausência de informações, a assepsia esbranquiçada dos interiores, as formas indefinidas do silêncio... Não há disposição para a contemplação, o senhor não acha?... Ele olhou-me longamente e perguntou para que eu repetisse o nome do autor do conto, e pela primeira vez o ar de confiança deu lugar a uma fratura apreensiva, demarcada pelo movimento das sobrancelhas.

    

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