18 junho 2012

Perguntas aos verdadeiros donos do mundo




Transcrevo abaixo minha versão quase integral, "modesta, mas com total fidelidade", do texto Preguntas a los verdaderos amos del mundo, de Pierre Bourdieu, extraído do livro Pensamiento y Acción, Libros del Zorzal, Buenos Aires, 2005. 

A princípio, minha proposta era realizar uma versão curta, de três ou quatro parágrafos, mas ao longo do trabalho, me senti especialmente estimulado em verter todo o texto, graças à força das palavras e atualidade de sua temática, ainda que passados treze anos de sua escritura. 

Nesta compilação de pequenos artigos e ensaios, produzidos em seus últimos dez anos, temos um Bourdieu bastante irreverente e ativo em suas manifestações contra a ordem neoliberal, mantendo a coerência de seus princípios como intelectual, ao participar de modo intenso nas diversas arenas de debates públicos.


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por Pierre Bourdieu



"Seria um pouco ridículo tratar de expor a situação do mundo midiático a indivíduos que o conhecem melhor que eu. Há pessoas que se encontram entre as mais poderosas do mundo, com esse poder que não é apenas o do dinheiro, mas o que ele pode propiciar aos espíritos. Esse poder simbólico que na maioria das sociedades era próprio do poder político ou econômico e hoje está nas mãos das mesmas pessoas, aquelas que detêm o controle dos grandes grupos de comunicação, vale dizer, do conjunto dos instrumentos de difusão dos bens culturais.


Me encantaria submeter estas pessoas tão influentes a um interrogatório similar ao que Sócrates propunha aos poderosos de seu tempo. Não estou em condições de fazê-lo, mas de todo modo gostaria de lançar algumas perguntas - que a estas pessoas seguramente não lhes ocorrem, em especial porque não têm tempo - que remetem a uma única: Amos do mundo, por acaso vocês dominam seu domínio? Ou para falar de modo mais simples, sabem o que estão fazendo e quais as consequências de seus atos? Perguntas que Platão responderia com uma citação célebre, que sem dúvida também se aplica aqui: 'Ninguém é malvado voluntariamente'. 


Nos dizem que a convergência tecnológica e econômica do audiovisual, as telecomunicações e a informática e a confusão das redes permitem que as proteções jurídicas se tornem completamente inoperantes e inúteis; nos asseguram que a profusão tecnológica ligada à multiplicação dos canais temáticos responderá à demanda potencial dos consumidores mais diversos e que graças a esta 'explosion of media choices' todas as demandas receberão uma oferta adequada: em suma, que todos os gostos serão satisfeitos. Afirmam que a competição, em especial quando está associada ao progresso tecnológico, é sinônimo de 'criação'. (...)


Por outro lado, também nos dizem que a competição dos novos ingressantes, muito mais poderosos - que provêm das telecomunicações e da informática - é tão forte que no âmbito audiovisual lhe custa cada vez mais resistir; que os cifrões dos direitos de transmissão, em especial nos eventos esportivos, são cada vez mais elevados, que tudo o que produzem e fazem circular os novos grupos de comunicação tecnológica integrados economicamente - desde publicidades de televisão até livros, filmes ou jogos televisivos - deve receber o mesmo trato que qualquer outra mercadoria (...). Nos dizem, finalmente, que a lei do lucro, ou seja, a lei do mercado, é claramente democrática, pois outorga o triunfo ao produto plebiscitado pela maioria.


Deveríamos confrontar cada uma destas 'ideias' não com outras ideias - correríamos o risco de passar por ideólogos perdidos nas nuvens - senão com feitos: à ideia de diferenciação e diversificação extraordinária da oferta, poderíamos opor a extraordinária uniformização dos programas de televisão; as múltiplas redes de comunicação tendem cada vez mais a difundir - normalmente à mesma hora - o mesmo gênero de produtos, jogos, 'soap operas', música comercial, melodramas sentimentais do tipo telenovela, séries policiais (...) e tantos outros produtos surgidos da busca de maximização de lucros e diminuição de custos; ou, em um âmbito distinto, a homogeneização crescente dos periódicos e, principalmente, das revistas semanais.
(...)


O essencial é que as preocupações comerciais e em particular a busca do lucro máximo a curto prazo, se impõem no conjunto das produções culturais. Desta maneira, na edição de livros - atividade que estudei de perto - as estratégias dos editores se limitam a orientar-se inequivocamente pelo sucesso: quando as editoras estão integradas por grupos multimídia, devem extrair taxas de lucro muito elevadas. (...)


É o momento de começar a fazer perguntas. Falei de produções culturais. Por acaso pode se falar hoje, e se poderá falar amanhã, de produções culturais e de cultura? Aos que constroem o novo mundo da comunicação e são construídos por ele, é natural evocar o problema a velocidade, os fluxos de informação e as transações, que se tornam cada vez mais rápidas; em parte têm razão quando pensam na circulação da informação e na rotação de produtos. Dito isto, a lógica da velocidade e do lucro que se reúnem na 'busca lucro máximo a curto prazo' - a audiência para a televisão, o número de leitores para os livros e diários e a quantidade de espectadores para os filmes - me parecem pouco compatíveis com a ideia de cultura. Como dizia Ernst Gombrich, o grande historiador de arte, quando as 'condições ecológicas da arte' se destroem, a arte e a cultura não tardam em morrer. 


Como exemplo, me contentaria em mencionar o que resultou do cinema italiano, que foi um dos melhores do mundo e que sobrevive graças a um punhado de cineastas, ou do cinema alemão, ou do que existiu na Europa do Leste. Ou a crise que envolve o cinema de autor pela falta, entre outras coisas, de circuitos de exibição. E nem falemos da censura que os distribuidores impõem a certos filmes, como o de Pierre Carles, que não por acaso versava sobre a censura das mídias. Ou o destino de uma rádio cultural como France Culture, um dos poucos lugares de liberdade frente a pressão do mercado e do marketing editorial, e que hoje está entregue à liquidação em nome da modernidade, da audiência e das conveniências midiáticas. 


Podemos compreender realmente o que significa a redução da cultura ao estado de produto comercial se recordamos como se constituíram os universos de produção das obras que consideramos universais, no terreno das artes plásticas, literatura ou cinema. Todas as obras expostas nos museus, todas as obras de literatura que se converteram em clássicos, todos os filmes conservados nas cinematecas e nos museus de cinema, são o produto de universos sociais que se moldaram pouco a pouco, liberando-se das leis do mundo ordinário e em particular da lógica do lucro.


Pensemos no seguinte exemplo: o pintor do quattrocento teve que lutar contra os empoderados para que sua obra deixasse de ser tratada como um simples produto para ser avaliada em função da superfície pintada e das cores empregadas. Teve de lutar para obter o direito de assiná-la, ou seja, o direito de ser tratado como um autor. Teve de combater pela singularidade, pela unicidade, pela qualidade e graças à colaboração dos críticos, biógrafos e professores de história da arte, se impôs como artista, como 'criador'.


Mas tudo isso é o que se encontra hoje ameaçado pela redução da obra a um mero produto ou mercadoria. As lutas atuais dos cineastas pelo 'final cut' e contra a pretensão do produtor de reter o direito final sobre a obra são o equivalente exato dos esforços do pintor do quattrocento. Foram necessários quase cinco séculos para que os pintores obtivessem o direito de escolher as cores empregadas, a maneira de empregá-las, e então o direito de eleger o tema (...). Assim mesmo, para ter um cinema de autor, é preciso todo um universo social, pequenas salas e cinematecas que projetem filmes clássicos e que sejam visitados pelos estudantes, cineclubes dirigidos por professores de filosofia formados na convivência habitual nestas salas, críticos bem preparados que tenham aprendido seu ofício vendo filmes que resenhavam nos Cahiers, enfim, todo um meio social no qual um certo tipo de cine seja reconhecido como valioso.


Estes universos sociais estão sob ameaça, pela irrupção do cinema comercial e o domínio dos grandes distribuidores, com os quais devem contar os produtores - salvo quando estes também trabalham como distribuidores. São a culminação de uma longa evolução e hoje se encontram em um processo de involução. Presenciamos a regressão da obra ao produto, do autor ao engenheiro ou ao técnico que utiliza os famosos efeitos especiais ou apela a grandes estrelas, recursos extremamente custosos, para manipular ou satisfazer as pulsões primárias do espectador, pulsões com frequência antecipadas graças às pesquisas de outros técnicos: os especialistas em marketing. E, por outro lado, sabemos todo o tempo a carência para criar criadores, em outras palavras, espaços sociais de produtores e receptores no interior dos quais os criadores possam aparecer, desenvolver-se e alcançarem êxito.


Reintroduzir o reino do comércio e do 'comercial' nos universos que muito lentamente se construíram contra esta prática, é colocar em perigo as obras mais importantes da humanidade, a arte, a literatura e inclusive a ciência. Não creio que alguém realmente possa desejar isso. Por essa razão no começo recordava a célebre fórmula platônica, 'Ninguém é malvado voluntariamente'. Se as forças da tecnologia aliadas com as forças da economia, as leis do lucro e da competição ameaçam a cultura, o que podemos fazer para confrontá-las? O que podemos fazer para fortalecer as chances daqueles que só podem existir nos longos espaços, aqueles que, como os pintores impressionistas de outro tempo, trabalham para um mercado póstumo? Refiro-me aos que se esforçam para que sobrevenha um novo espaço, em oposição aos que se submetem às exigências do mercado atual e recebem benefícios imediatos, materiais, econômicos ou simbólicos (prêmios, condecorações ou renome acadêmico).


Gostaria de convencê-los - porém seria preciso muito mais tempo - de que perseguir o lucro máximo e imediato no mercado dos livros, de filmes ou das pinturas não significa necessariamente obedecer a lógica da ganância: identificar a busca do máximo de lucro com a busca do máximo de público é se expor a perder o público atual sem adquirir nenhum outro, a perder o público relativamente restrito dos que leem muito, dos que frequentam os museus, os teatros e os cinemas, sem ganhar novos leitores ou espectadores ocasionais. Se tomarmos em conta que nos países desenvolvidos a duração dos estudos básicos não cessa de crescer, bem como respeito ao nível de instrução médio e todas as práticas ligados a ele - visitas a museus, teatros, leitura etc - podemos pensar que uma política de investimento econômico em produtores e produtos 'de qualidade' pode ser economicamente rentável a médio prazo.


Portanto, a escolha não é entre a 'globalização'- ou seja, a submissão às leis do comércio e consequentemente ao reino do 'comercial', que sempre se distingue do que quase universalmente se entende por cultura - e a defesa das culturas nacionais, esta ou aquela forma de nacionalismo o localismo cultural. Os produtos kitsch da 'globalização' comercial, a película de entretenimento com efeitos especiais (...) se contrapõem aos produtos da internacional literária, artística e cinematográfica, cujo centro está em todas as partes e em nenhuma, ainda sim por muito tempo se fixou em Paris, Londres ou Nova York, sedes de uma tradição nacional de internacionalismo artístico.


Assim como Joyce, Faulkner, Kafka, Beckett ou Gombrowicz, produtos puros de Irlanda, EUA, Checoslováquia ou Polônia floresceram em Paris, muitos cineastas contemporâneos como Kaurismaki, Manuel de Oliveira, Satyajit Ray, Kieslowski, Woody Allen, Kiarostami, e tantos outros, devem suas realizações a essa internacional literária, artística e cinematográfica situada em Paris. Sem dúvidas porque aí, por razões estritamente históricas, esse microcosmo de produtores críticos e receptores informados que resulta tão vital se constituiu há muito tempo e pode sobreviver até hoje.


Insisto: leva muitos séculos criar produtores que trabalhem para mercados póstumos. Colocar por um lado uma 'globalização' supostamente vinculada ao poderio econômico-comercial, ao progresso e à modernidade, e por outro um nacionalismo atado a formas arcaicas de conservação da soberania não ajuda a compreender o problema. Na realidade, presenciamos uma luta entre uma potência comercial que pretende expandir universalmente os interesses particulares do comércio e de seus amos, e uma resistência cultural baseada na defesa das obras universais produzidas pela internacional desnacionalizada dos criadores.


Queria terminar com uma anedota histórica, também ligada à questão da velocidade, e que em minha opinião assinala muito bem as relações que uma arte liberada das pressões do comércio poderia manter com os poderes temporais. Conta-se que Michelangelo empregava tão poucas formas protocolares em seu vínculo com o papa Julio II, seu mecenas, que este se via obrigado a sentar-se rapidamente para impedir que Michelangelo se sentasse antes que ele. Em certo sentido, poderia se dizer que tentei aqui perpetuar, muito modestamente, mas com total fidelidade, a tradição inaugurada por Michelangelo: distanciar-se dos poderes e muito especialmente dessas novas forças que se apoiam no dinheiro e nas mídias". 


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