07 março 2010

Um brilho doentio


Vejam-no, avançando pela margem do rio, em um bucólico caminho que o conduz à sua casa. Sem uma expressão vital, quando muito uma ansiedade fugaz que se perde com o murmúrio das águas. Pronto, agora escala a escadaria que o conduzirá diretamente aos braços da amada, dos filhos, da novela das oito. Veste-se como um burocrata de escritório, desses que contam os dias para a aposentadoria. É possível notar que por trás da ausência de expressão vital há uma satisfação sorrateira, dessas que emergem após um gesto mortal. Olhando-o melhor percebemos que se trata de um sujeito penoso, que ri das piadas sujas de seus colegas de repartição, que cumpre os horários sem questionar, que se dedica ao amor como quem assina documentos, que vota porque é obrigado a votar, que aposta na loteria sem saber o que faria com o prêmio, enfim, nada mais que uma existência opaca.
Mas, reparem melhor, há algo em seu olhar, um brilho doentio que emana obliquamente, engolfando todas as demais evidências. Há uma vivacidade residual, fruto de outro ato cultivado, sorrateiro, bem sucedido. Não, não é em razão de nenhum gesto solene, ou de uma palavra espirituosa. Sob a vaguidão das sombras, urdiu uma denúncia, aplicada com a devoção sinuosa de uma serpente. Sintam o frescor da delação retinindo em seu olhar, de profundidade sinistra; desvelem o universo de traições que se acumulam! Ainda há pouco denunciou mais um colega da repartição, e não que isso lhe traga benefícios imediatos, ao contrário, denunciou pelo prazer da denúncia. Aguardou o melhor momento para difamar à sorrelfa, com direito aos detalhes pacientemente elaborados nos momentos de repouso, entre um e outro despacho na repartição. A trama culminou com seu requinte mais perverso, destilando o veneno antes do fim de semana, permitindo que seu efeito letal se torne devastador na semana seguinte... Vejam-no, pois, em seu caminhar despreocupado, como quem saboreia as elucubrações sádicas.
Olhos trágicos, que revelam a satisfação dissipada – como o efeito da droga nos corpos viciados, de prazer tão intenso quanto efêmero – substituída pelas marcas indeléveis da canalhice. Reparem bem nesses olhos, torpes como as certezas de sua razão, que destilaram nova denúncia apenas para saciar seu desprezo pelo mundo.
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