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| Frame do filme O Terceiro Homem, 1949 |
O texto que reproduzo abaixo é parte de uma declaração feita pelo filósofo Bertrand Russell em janeiro de 1970, poucos dias antes de sua morte aos 97 anos. Particularmente tenho muita simpatia por seu ativismo político, sobretudo nos últimos anos de vida, já com mais de 80 anos. O que mais me recordo e muito aprecio é o que constituiu com o apoio de outros intelectuais, como Jean Paul Sartre, o Tribunal Russell, onde por exemplo, a Guerra do Vietnã, foi submetida a julgamento público.
O motivo de trazer este grande e esquecido pensador é sua declaração de meras três páginas, onde o texto aporta um significado perene a respeito dos enfrentamentos entre Israel e Palestina. Talvez uma expressão mais precisa seja atualidade: observamos o frescor - ou a dor trágica - de uma revelação que, expressa há mais de 50 anos, persiste em manifestar-se ainda em nossos dias. Sintam a força e contemporaneidade de seu argumento! Se substituirmos no início a referência ao território egípcio por 'território iraniano', o texto funciona de modo admirável.
Passo a transcrever parte do pronunciamento de Bertrand Russell.
A última fase da guerra não declarada no Oriente Médio está baseada num profundo erro de cálculo. Os reides aéreos no interior do território egípcio não persuadirão a população civil a render-se, mas enrijecerão sua resolução de resistir. Esta é uma lição de todos os bombardeios aéreos. Os vietnamitas, que suportaram anos de pesado bombardeio norte-americano, responderam não com a capitulação, mas derrubando mais aviões inimigos. (...)
O desenvolvimento da crise no Oriente Médio é, ao mesmo tempo, perigoso e instrutivo. Por mais de vinte anos, Israel tem crescido, pela força das armas. Depois de cada fase dessa expansão, Israel tem apelado para a razão e tem sugerido negociações. Isso é o procedimento tradicional da potência imperialista, porque ela deseja consolidar com a menor dificuldade aquilo que já tomou pela violência. Cada nova conquista se torna a nova base para negociações propostas pela força, ignorando a injustiça da agressão anterior. (...)
Muitos dos refugiados (palestinos) estão agora entrando na terceira década de sua precária existência em acomodações temporárias. A tragédia do povo da Palestina é de que seu país foi "dado" por uma potência estrangeira a outro povo, para a criação de um novo Estado. O resultado é que muitas centenas de milhares de pessoas inocentes foram tornadas permanentemente sem lar. A cada novo conflito, seu número aumenta. Por quanto tempo mais o mundo está querendo suportar este espetáculo de desenfreada crueldade? (...)
O que Israel está fazendo hoje não pode ser desculpado, e invocar os horrores do passado para justificar os do presente é grossa hipocrisia. (...) A justiça requer que o primeiro passo para uma solução seja uma retirada israelense de todos os territórios ocupados em junho de 1967. Faz-se necessária uma nova campanha mundial para ajudar a levar justiça ao povo há tanto tempo sofredor do Oriente Médio.

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