24 agosto 2013

O inferno terrestre


Há exatos vinte anos, trabalhando pela Caixa Federal, fui convidado a prestar serviço em uma unidade chamada CAT, Central de Atendimento ao Trabalhador. A cidade de São Paulo possuía cerca de dez desses imensos ambientes de perdição, que recepcionavam, ao longo de quase doze horas por dia, uma imensidão de trabalhadores humildes e desempregados. O gestor da proposta pretendia dar vazão às pendências trabalhistas, e certamente sem se dar conta do caos humano que idealizara, fez com que a empresa aceitasse o projeto. 
Bastou-me uma semana a trabalhar em uma CAT para incorporar todos os horrores de uma vida. Foi essa experiência que me conduziu de modo decisivo à reflexão e pesquisa social, via observação participativa. Pouco tempo depois, participei de um concurso literário pela instituição, cuja proposta temática era apresentar situações cotidianas do trabalho. Não pensei duas vezes e engajei-me no projeto, que denominei Tríptico, numa clara alusão ao inferno descrito por Bosch, mas incluindo referências a Dante e a Macbeth. O conto foi um dos premiados, vindo a integrar mais tarde uma interessante coletânea interna, com divulgação nacional. Comandando a comissão julgadora, composta por pessoas da empresa, estava Ferreira Gullar, ao qual certamente devo a inclusão do meu conto. 
O texto abaixo é um registro em forma de diário (com pequenas alterações) que fiz no calor desta amarga experiência. O curioso, e muito satisfatório para mim, passados poucos meses da publicação do volume com os trabalhos vencedores, os CATs foram desativados e definitivamente encerrados. 
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"Destacado por uns dias no CAT. Que mudança de ares! Aquilo é uma Torre de Babel, uma loucura organizada. Centenas de trabalhadores e desempregados em busca de seu PIS, Fundo de Garantia, Seguro Desemprego, espremendo-se pelos dantescos corredores sem fim, enormes espaços sem alma, coalhados de bancos de madeira, imersos numa zoeira de vozes irrequietas, desgastadas pela vida, mas ainda dispostas a oferecer mais uma gota de paciência. Ninguém parece se entender e no entanto as filas comprimidas dispõem-se em certa organização. Qualquer detalhe pode significar diversão, por uns bons minutos: uma bela mulher que passa, um desempregado desfilando com a camisa do time, um rumor mais ríspido por causa de um fura-filas... Ou qualquer episódio mais funesto, um desmaio ou alguém passando mal do estômago e expelindo as vísceras ao solo... Nada escapa ao comentário das rodinhas instantâneas, grupos de alquebrados que vislumbram uma oportunidade de trocar uma ideia (...) São horas e mais horas de imobilismo, de reflexão compulsória imposta pelo Estado, na pior das hipóteses pelo menos um novo amigo, ou com sorte, um novo amante, é possível arranjar-se nessa maratona da inanição.

Há o outro lado, a equipe que presta o atendimento a essa massa de desafortunados. Mariscos. Como se diz, na briga do rochedo contra o mar, quem leva a pior é o marisco. O mar, o povo, a uma centelha de qualquer coisa, e o rochedo, o governo, indiferente e estático diante das agruras da situação. E o marisco vai se virando. Somos um grupo de uns 30 empregados e mais outro tanto de pobres estagiários, que fazem das tripas coração para, num prazo médio de oito a dez horas, resolver todos os problemas da melhor maneira. A ordem é seguir o manual e, na impossibilidade disso, na absoluta impossibilidade disso, improvisa-se. Ao final da jornada, o resultado se impõe como razoável, sob pena de comprometer toda a estrutura. Me dá a idéia de um grande exército em retirada, desgarrado, derrotado, que soluciona pequenas contendas, mas sabe que tudo, todo o esforço é por uma causa perdida.

Trabalhei hoje na retaguarda deste grande exército em retirada e vi os horrores da luta. Luta-se para sobreviver, esta é a realidade. Aquele espaço dividido por tanta gente é o palco onde se encena o absurdo da vida (...) Só sei que todo o esquema de trabalho é uma grande bestialidade. Não se entende como seres humanos possam se submeter a tanto infortúnio, a uma compressão moral tão grande! Escrevo e paro por aqui, por que continuar descrevendo uma câmara de horrores? 
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Uma semana de CAT, um trabalho maluco, em um lugar escasso em mão de obra e apinhado de gente. Fiquei num canto, conferindo listagens com guias de pagamento de INSS, trabalho irritantemente burocrático, tendo à minha volta um grupo de estagiários enfrentando uma massa de mortos-vivos, postada do outro lado do balcão. Quando sentia as pálpebras pesadas e o sono querer me envolver, levantava a cabeça para apreciar o movimento. Dedicados adolescentes, atendendo uma fila infindável de pessoas, que solicitavam a liberação do Fundo de Garantia. Trabalho maçante para quem atende e para quem quer ser atendido. Todo dia a mesma ladainha, a mesma sequência, só mudando os personagens do lado de lá do balcão. E tudo ocorrendo sem maiores sobressaltos. 

Observar esse movimento me despertava, me fazia conformado com a minha tarefa. Às vezes eu levantava e ia até o banheiro, situado do outro lado do imenso galpão. De algum modo me recordava a cúpula do mundo subterrâneo descrito por Julio Verne, em Viagem ao Centro da Terra. Tudo ali no CAT é grandioso: o tamanho das instalações, o tamanho das filas, a paciência das pessoas, o trabalho a ser realizado... 

Um cotidiano sem piedade. Pois bem, eu atravessava aquela massa humana calada, que me acompanhava com os olhos, à espera da vez, à espera de um minuto de solidariedade. Eu ia driblando pessoas e bancos de madeira, o ar quente e abafado me tomava as narinas, o torpor me sacudia e também me solicitava piedade. Passava o setor dos guichês, à esquerda, onde aquela gente finalmente recebia o que lhes era devido, À direita, mais bancos de madeira, mais gente, porém em menor escala. Havia um pouco mais de satisfação nesta área, não em relação aos caixas, que afinal de contas efetuavam mecanicamente o atendimento final, mas da massa, nesse estágio mais esperançosa, mais próxima da dignidade. (...) Atravessava esse espaço e chegava a um corredor interno, e por fim o banheiro. Uma mijadinha, uma água na cara e iniciava a longa volta, procurando observar mais detidamente os rostos. De algum modo eu evitava essa prática ao vir para o lado de cá do balcão, pois um olhar mais fixo e prolongado para um rosto era entendido como um sinal para se aproximar e interpelar a respeito dos problemas e das dúvidas. Curiosa manifestação: o olhar detido era considerado como um convite à aproximação, um “olá” solidário. Ou como uma permissão, "está bem, o que deseja?...". E aceitavam qualquer justificativa, qualquer fala, por mais esdrúxula que fosse, afinal era uma versão oficial. E voltavam contritos para o lugar que ocupavam antes, ou dirigiam-se para um local indicado por mim. 

A submissão completa me fazia sentir um soldado cumprindo ordens num campo de concentração, qualquer coisa que eu solicitasse, seria atendido. Se eu resolvesse ordenar silêncio, eles se calariam prontamente; se eu escolhesse um bode expiatório por conta de uma fila mal organizada, o sujeito aceitaria o achincalhe, humildemente. E o horror não se completava ao retornar à minha mesa. A possibilidade do devaneio estava completamente eliminada naquele rincão, pois não havia tempo bondoso. O procedimento era claro, agir objetivamente, resposta imediata às demandas, sem sonhos nem pudores, fenomenologia pura (...)." 


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