22 maio 2026

A decadência do ocidente


por Juan Rulfo

O fechamento da Livraria Cultura, sacramentado neste ano, coloca em xeque os espaços maravilhosos provedores de bons livros que marcaram nossas vidas. Graças a ela, não apenas montei metade da minha biblioteca, com livros de editoras marcantes como a Catedra, Alianza Editorial, Debolsillo, Siglo XXI, Fondo de Cultura Económica, Cultrix, Edições 70, Cosac&Naify, Guimarães Editores, Publicações Europa-América, Editora Mestre Jou, dentre tantas outras, como em suas poltronas aprendi a desfrutar o tempo da leitura em longas e iluministas investigações e dessa forma, descobrir inúmeros autores nacionais e estrangeiros. Um moto-contínuo cultural! 

Também na Cultura, em 1991, fui anunciado como múltiplo vencedor de um concurso de poesia, dramaturgia e contos, de um concorrido prêmio literário promovido pela empresa em que trabalhava: eu não estava lá, tive de fazer uma prova final de Geomorfologia e não tinha como faltar. Meus amigos presentes disseram que foi divertido ouvirem chamar meu nome diversas vezes. Levei os dois prêmios de contos e mais o de dramaturgia, o que me rendeu vales-livros substanciais, garantindo minhas aquisições literárias por um bom tempo. 

Muito bem, a Cultura virou história e não só ela. Na semana passada, fechou no Rio de Janeiro a Livraria Martins Fontes, referência literária por mais de cinquenta anos na cidade. Simples assim, fechou. Leio agora no Página12 da Argentina*, um artigo assinado por Mario Goloboff entitulado Primeras observaciones de un mundo cultural en decomposicion, onde descreve a transformação da FNAC histórica em um local em um líder europeo de la distribución de bienes culturales, juegos, videojuegos, productos técnicos, electrodomésticos... Tudo bem com a proliferação de produtos à venda, mas cruel não manter as novidades literárias que outrora despertava o desejo de tantos leitores por boa literatura.

Goloboff também comenta a demissão de Olivier Nora, da famosa Editora Hachette, pelo multimilionário Vincent Bolloré, que atende a uma classe de ideólogos e políticos de direita, ameaçando, segundo Gisele Sapiro, diretora do importante Centro Nacional de Investigação Cienfífica "o patrimônio cultural e intelectual da França". Tudo isso porque o grupo Hachette possui uma grande penetração em manuais escolares e no mercado editorial na África francófona.

E conclui trazendo uma triste imagem do abandono físico da Biblioteca Nacional, sinalizando a falta de investimento na preservação da infra-estrutura, e com isso o templo das bibliotecas parisienses "se viene abajo sin que detengan su caída los sucesivos ministros de cultura ni los cultos presuntos candidatos a las próximas elecciones". Significa dizer, uma decadência cultural em um país que sempre prezou pela Cultura. Utilizo no título a expressão usada por Oswald Spengler em sua obra magna, sem desejar necessariamente designá-la como referência, mas apenas a apropriação de um termo feliz que expressa o derrumbe intelectual do ocidente e seu consequente fracasso nas mãos neoliberais e ultradireitistas imbecilizados.

https://www.pagina12.com.ar/2026/05/22/primeras-observaciones-de-un-mundo-cultural-en-descomposicion/


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