30 setembro 2015

Cesare Zavattini



Cada coisa ao seu tempo. Depois de Eisenstein e sua montagem de atrações, agora Zavattini e a continuidade de um realismo dos pequenos gestos e das personagens singelas, a câmera que não disseca, mas apenas registra. Esse momento tão belo do cinema, o neo-realismo italiano, me emociona não apenas pelas narrativas humanas, mas por todo o conjunto de suas qualidades, que não são poucas. A beleza de um cinema sem metáforas, onde, como diz Bazin, "a imagem realista, fotográfica, mimética, fala por si mesma, sem qualquer apelo à consciência enunciadora; uma espécie de grau zero da linguagem cinematográfica". 

O curso com a Profa. Mariarosaria Fabris, sobre o neo-realismo italiano, isso no longínquo ano de 2000, quando ainda alimentava uma perspectiva acadêmica voltada para linguagem cinematográfica. Foi antes de um saboroso aprendizado, um primeiro e intenso contato com a magia do realismo social. Vi a Itália sob diversos matizes, descrita por roteiros soberbos em sua simplicidade, representados pela gente anônima do campo e das cidades, e, talvez, a marca principal, a descrição do acontecimento em si, sem o apelo de qualquer efeito espetacular.  

Nesse sentido, gosto de me referir ao filme Umberto D, dirigido por De Sica e com roteiro de Zavattini. Atrevo-me a dizer que se trata da grande obra do neo-realismo, aquela que incorpora seus principais conceitos técnicos, a começar pela narrativa despretensiosa da vida de um velho, Umberto Domenico Ferrari, e seu cachorro Flaik. A câmera não promove estrepolias, ela apenas descreve os fatos ordinários da vida, como a célebre sequência da preparação do café por Maria, que trabalha na hospedaria em que se encontra Umberto. O fogo aceso, a caminhada até a janela, a visão soturna dos fundos do prédio, a chaleira com água, a reflexão sobre a gravidez, o café sendo moído, e sentada, esticando a perna para fechar a porta...

Zavattini ainda irá ao México, com a proposta de trabalhar ali a estética neo-realista. Conforme Paulo Paranaguá, ele acredita que o "México está maduro para produzir uma obra cinematográfica realista verdadeiramente importante". Serão três viagens, entre 1955 e 1957, sem que obtenha resultados conclusivos. Estende a aventura latino-americana para contatos e experiências em Cuba e Argentina, inspirando Fernando Birri em seu primeiro longa-metragem de ficção, Los Inundados com a marca do neo-realismo.


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