04 outubro 2013

Sobre os passos indispensáveis


Os esforços acabam sendo de grande valia, quando compreendemos a necessidade de um propósito. No caso, a prova de hoje, com aquela sala complicada mostrou-me ao final das contas a didática a ser buscada. A uma certa altura, resolvi caminhar pela sala, por entre os grupos, pois vi que estendiam exageradamente o tempo de prova. Optei livremente por perguntar como iam e diante de uma ou outra dúvida, propunha didaticamente uma reflexão, contornando o problema, mas deixando-o ao alcance dos olhos e do coração. Foi incrível como demonstraram vividamente romper com os impasses, de algum modo avançando na escritura. Um aluno me chamou a atenção, Ernesto, o mais chato e desagradável da sala. Consultou-me sobre seu percurso na resposta e lhe fiz ver a projeção da teoria de Bauman na realidade. Desenhei (sim, desenhei) um conjunto de guetificações miseráveis e de luxo, nomeando-as devagar, olhando-o com firmeza, com a conhecida firmeza guevarista, endurecida pero con ternura, indagando-lhe se não era como via e sentia a cidade. Ele me acompanhou atento e ao final expressou-se com uma luminosidade convincente, dizendo que agora era possível entender a proposta do Bauman, maravilhoso Bauman. Voltou para a carteira e respondeu a questão, que ao final das contas, me pareceu bem resolvida. E assim foi com um conjunto de outros alunos, sem oferecer respostas objetivas, mas conversando sobre os temas, indagando-lhes sobre o entendimento das coisas.

Um a um foi se retirando, com aquela consciência (ou impressão) de que tinham capturado o que não conseguiam antes fazer ideia. Ainda assim saíram preocupados, mas com uma leveza para eles mesmos, inesperada. De minha parte, nunca uma prova me pareceu um instrumento tão propositivo e eficiente para fazê-los avançar sobre um adorável enigma. Fomos a última sala a deixar o andar, e de algum modo percebi a necessidade do esforço pedagógico, ainda que em um momento supostamente indevido. Sei lá, qual é o tempo definido para o aprendizado e compreensão das coisas? Eu os tinha (na verdade, ainda os tenho...) como desinteressados sem causa, mas por um momento pude perceber que uma atenção mais intensa e cuidadosa pode ao menos amenizar tensões insuperáveis. Um dos alunos me indagou sobre o que era esse estranhamento diante de uma cultura distinta, que Laplantine tão lindamente aborda em seu texto. E conversamos largamente sobre isso. Outros participaram, e ouviram, e comentaram cada qual à sua maneira, a voz que se articula e que se faz ouvir! Não lhes dei respostas, apenas propus caminhos para um desejo de ir mais além dos horizontes conhecidos. Avançar por veredas difíceis, mas construtivas, sem receios, e promover a eliminação do medo, dos preconceitos sobre o desconhecido. Tudo pode parecer um longo percurso sem atalhos, mas sinto a necessidade de descobrir quem são aqueles alunos, e por algum caminho fazer cumprir os desígnios de uma escolha, ou seja, contribuir para uma discussão que faça despertar as dúvidas, sem deixar de estimular a confiança.

(Uma versão expandida deste texto encontra-se na revista digital VilaFlorhttp://www.vilaflor.art.br/edicao-03/marco-antonio-bin.php)


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