16 dezembro 2025

A caminho de Sófia




Mas voltemos ao trem que me levaria a Sófia. (...) Meus companheiros foram cinco, três búlgaros – mãe, filho e uma amiga dele, ao que pude perceber – e dois estadunidenses, com passaportes búlgaros. Eu isolado em meu português inútil, um estranho no ninho. Não desenvolvi nenhuma relação amistosa com meus companheiros de cabine, pois não tínhamos uma língua em comum, e porque cada grupo ficou na sua. Desde Istambul, levamos cinco horas e meia para atingir a fronteira com a Bulgária, e aí permanecemos parados por duas horas e meia. (...) Do outro lado da plataforma havia outro trem estacionado, e no meio, uma montanha de fardos de tecido manufaturado para serem embarcados. Os montes atingiam uns três metros de altura e se estendiam por toda a plataforma. Olhei para aquilo e por uma fração de segundo quis duvidar que tudo seria embarcado. De pronto me veio a lembrança daqueles trabalhadores eslavos em Istambul se esfalfando para colocar dentro dos ônibus e furgões seus pacotes de compras. Repetia-se o esforço, agora naquele lugar ermo, fronteiriço. (...) 

Grupos de incansáveis ‘estivadores’ eslavos, vestindo uma simples camiseta sob um frio congelante, movimentavam-se diante da enorme barreira de fardos. Estava claro que cada grupo tinha uma carga delimitada para si, a sua mercadoria. Logo, começaram a carregar o quinhão que lhes pertencia para o outro trem. Letras em cirílico indicavam alguma coisa sobre a mercadoria, talvez estabelecendo a que grupo cada monturo pertencia. Eu me tornava um espectador privilegiado, assistindo tudo desde o começo. Aos poucos pude distinguir um grupo do outro e lá pelas tantas passei a entender o esquema da divisão do trabalho. Grosso modo, o importante era levar tudo para dentro do trem, por conta de algum prazo estabelecido. O ‘como fazer’ é que variava. Um grupo, que atuava mais à esquerda do meu campo de visão, era composto por um eslavo que controlava o carregamento realizado por turcos. Ele ficava ao lado do que lhe pertencia e à chegada de um carregador, ajudava-o a acomodar o fardo em suas costas, o enorme fardo! Pensei em minha mochila, achava-a pesada em seus 19kg e via aquelas ‘pobres mulas’ ajeitando fardos pelo menos duas vezes mais volumosos...  

A sistemática era simples e dolorosa, o eslavo e o carregador catavam o fardo por um lado e sacudiam num movimento pendular até anularem a força de gravidade, quando o ‘chefe’ arremessava o pacotão em perfeita sincronia com a virada do carregador, que o recebia e o amparava em suas costas. Eram dois turcos a realizar esse trabalho de formiguinha, com o eslavo fiscalizando o encaminhamento e o embarque do material sem sair do lugar. (...) Mais à direita, o que me pareceu ser pai e filho transportavam seus invólucros de maneira mais usual e lenta: pegavam cada qual numa ponta e carregavam até a porta do vagão, onde outros dois recolhiam e ajeitavam os volumes em seu interior. Pai e filho iam e vinham em um movimento meticuloso, repetitivo, determinado. Às vezes o filho ficava uns minutos a sós – o pai saia de cena para resolver algum problema – e aproveitava para acender um cigarro. O frio enregelava os meus pés dentro da cabine, o que dizer da temperatura lá fora?... Talvez por isso todos trabalhavam sem cessar. De certa forma ali estava o ganha pão daquelas pessoas desafortunadas por injunções políticas, pela incompetência de dirigentes que não assumiam suas responsabilidades perante seus povos. Aqueles, à minha frente, não tinham tempo a perder com esse tipo de raciocínio, por isso continuavam a trabalhar duro. 

Aos poucos se juntaram em torno desses dois grupos iniciais outros sujeitos corpulentos, que já deviam ter concluído seus trabalhos alhures e ajudaram no transporte com as mercadorias. O monturo foi diminuindo, até que os derradeiros invólucros foram embarcados. Ao final, formaram rodinhas de três, quatro, e fumaram, gargalharam, moveram-se como cães de caça para um lado e para o outro, como se não soubessem ficar sem ter o que fazer. Mas deviam estar satisfeitos por mais uma etapa vencida. As cabinas do outro trem estavam repletas de mercadorias, as mulheres ficaram nos corredores organizando o fluxo de pacotes. Pensei um pouco sobre a minha situação: completamente isolado em uma cabine desaquecida, à mercê do movimento do trem para retomar a viagem. Não havia a quem reclamar. A mais pura impotência me instruia em um duro aprendizado, saber suportar uma adversidade fora do meu controle. Não havia o que fazer, a não ser resistir como corpo e consciência. Demorou para o trem partir (o deles; o nosso permaneceu imóvel por um longo tempo) e, como se tudo estivesse perfeitamente sincronizado, começou a chover.

(Diários de viagem, março de 1994)



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