10 novembro 2013

Tempo, Memória, Ausência



Pronto, lá se foi, meu irmão. Mais uma vez, e cada vez de um jeito diferente, deixando um rastro de memória, o gosto amargo de um adeus com uma vaga sugestão de reencontro. Vejo sua partida não mais como antes, quando achava graça em seus movimentos imprevisíveis. Agora, cada vez se torna um pouco mais dolorida, porque o imprevisível não mais se oferece fartamente no horizonte, porque no lugar das extensões infinitas, das inesperadas surpresas ao sabor do vento, a vida nos cerceia com montanhas e picos intransponíveis, a prevalecer a âncora do lugar, dos gestos serenos, menos elásticos. Se antes nos aprazia as delícias da busca imprecisa, agora e cada vez mais saboreamos o que restam das lembranças marcantes, um olhar oblíquo, uma frase solta, um silêncio mais prolongado, aquilo que permanece em nome da falta.


Em outras palavras, o tempo insiste em fluir em sua forma expansível, enquanto experimentamos mais e mais o calor ausente do momento, imerso em desconjuntada sucessão de presentes, a projetar nossas estreitas esperanças. A memória postula-se, ávida, pelas contingências palpáveis, infatigável fonte de mistérios e emoções, enquanto, paradoxalmente, se predispõe ao esquecimento. Ao exercitarmos saudosas recordações, ao desvelar nossa condição de vir a ser o passado, de algum modo olvidamos serenas impressões, delicados ensejos, sem jamais recuperarmos o mesmo ter sido que é, o que pode ser trágico, embora nada que se compare com a consciência da ausência indesejada.

(modificado em 06.05.2017, após mais uma despedida de meu irmão)



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