13 novembro 2009

Cavalos


Pois foi esse um tempo em que coisas estranhas, para não dizer tragicômicas, aconteceram. Começo por dizer que meu desejo mais incontrolável era jogar um cavalo sobre alguém ou sobre um grupo de pessoas. Cresci e amadureci a decisão de um dia ter um cavalo só meu. Nesse meio tempo, não conseguia imaginar outra coisa senão estar montado num garanhão alado e, por qualquer razão, jogá-lo contra alguém. Perversão? Diria antes um caso de hereditariedade. Minha mãe cansou de me contar que meu avô, em seus bons tempos, adorava montar em seu sítio, nas cercanias de Parelheiros, e saltar sobre os porcos na pocilga... Lembro-me de passar horas diante de suas baias, ou em jogos de pólo, no elegante clube hípico de Santo Amaro, quando ainda era possível romper as cercas esburacadas e entrar em suas dependências. Como eram bonitos e como davam imponência aos cavalarianos que os conduzia. Consubstanciaram-se nesses tormentosos anos sessenta os meus primeiros sonhos montando e amassando comunistas, estudantes ou quem quer que fosse, como se amassam tomates.
Até que montei pela primeira vez, já servindo a guarda, sendo daí um pulo, ou um salto, como queiram, para ser escalado a vigiar as ruas. Como não mais surgisse confusão com grevistas ou outro tipo de manifestantes, fui segurando indefinidamente a minha sede indômita em realizar o meu desejo, enquanto ia aperfeiçoando um plano bem meticuloso, a fim de extrair o máximo de gozo possível. Comecei sondando uns colegas próximos da corporação, se topavam uma farrinha numa boa, lhes omitindo é evidente o objetivo supremo. Infundia-lhes a glória de participar logo de saída, de uma carga a là Davout, todavia o prazer de uma ação coletiva tornou-se aos poucos impraticável, dada a reação de estranhamento que se estampava nas faces de meus interlocutores. Não desisti: tomei exclusivamente para mim a incumbência de levar a empreitada avante e passei a aguardar o local e a ocasião. Não demorou e ela caiu como uma fruta madura, no meu colo: um jogo do Corinthians, Pacaembu. Fui escalado para fazer a ronda das cercanias. Delirei, não podia ter sido melhor, uma quarta à noite, contra o Juventus e por ser uma partida chave para as pretensões do alvinegro, haveria casa cheia. Maravilha, quarta à noite, penumbra, gatos pardos aos montes, praça Charles Miller, espaço, tomates, que bela massa de tomates. Eu desejava fazer o cavalo levantar vôo sobre a plebe ignara e fazê-lo cair de quatro bem no meio deles, quando estivessem saindo pelos portões principais, com a cabeça inchada pela derrota.
Minha empolgação estava dando lugar a um desejo mórbido que extravasava os poros, mas que exigia uma execução profissional. Imaginei então que seria mais interessante e proveitoso lançar o animal em cima de um único alvo escolhido na hora, aleatoriamente e esse fator surpresa resgatava mais emoção à ação, fazendo com que a tragédia se restringisse a um acidente fortuito. Concentraria as minhas energias – e as do cavalo – buscando tripudiar gostosamente sobre um indivíduo qualquer e todo o esforço despendido no ataque serviria mais tarde como justificativa para provar o quão atarantado eu ficara ao ter um cavalo descontrolado nas mãos.
Vibrava a mais tênue sugestão do episódio, mal dormia as noites, cada vez mais longas e sequer me alimentei nos dois dias que precederam a ação. Na noite fatídica, eu fazia dupla com um novato no batalhão, de modo que me mantive quieto a maior parte do tempo, atento para a movimentação do público. Tudo corria sem sobressaltos, o esquema parecia bem montado e quando surgiu um fato novo, foi para ajudar. Na hora da saída do povão, estávamos a uns cinqüenta metros dos portões monumentais, eu um pouco mais próximo deles. Olhei para trás, vi meu colega conversando com um torcedor, despreocupado. A massa já nos envolvia, relaxada pelos 4x1 da vitória. Passei à etapa seguinte, a escolha do candidato. E ele despontou como um rosto qualquer na multidão, sem uma expressão definida a não ser um bigodinho discreto, ouvindo um rádio de pilha, com a camisa listrada do Timão. Ele se aproximava aos poucos, serpenteando sem pressa a enxurrada de pessoas, quando foi se abrindo um clarão entre nós, obra divina do acaso, como convidando-nos – eu e o cavalo – a avançar. Espremi, vacilante, a barriga do cavalo com as esporas. A ânsia foi tamanha que devo ter machucado o animal, sem ter alcançado o resultado desejado. Sacudi as rédeas e joguei desajeitadamente o corpo para frente, não querendo perder um só detalhe. Era como se houvesse um refletor poderoso em cima do bigodinho e o resto fosse de uma negritude sem importância. Sua primeira e tardia reação foi paralisar os movimentos, enquanto olhava assustado, vermelho feito um tomate comunista. O cavalo não disparou, arremeteu tropegamente por uns poucos metros e quando puxei as rédeas, já babando de prazer, ele empinou uma, duas vezes, minha loucura passou para o animal, que resolveu rodopiar feito um xucro selvagem. Tombei de costas no solo e ainda pude ver um corintiano puxar o bigodinho para trás e meu companheiro chegar a tempo de evitar que as patas do cavalo acabassem me trucidando.
Sai dessa por um triz. Os colegas lá da corporação dizem que nasci de novo e não param de fazer visitas no hospital. Até o comandante veio me ver, acompanhado por sua esposa (sem dúvida, uma bela potranca). Minha perna esquerda está dependurada, imobilizada, tenho faixas por todo o corpo, mas isso não interessa. Passo o tempo fazendo a única coisa que me é permitida: assistir televisão. E tenho visto nos noticiários os tanques abrindo caminho em multidões indefesas. São devastadores, decididos, não refugam, nem são vulneráveis a quem lhes queira resistir. São perfeitos para agir sem piedade, sem falhas. Pensando bem, a coisa mais fácil do mundo é lançar um tanque sobre alguém, ou sobre um grupo de pessoas...

(do livro A Paixão Inútil)
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